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B O N E C A S
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A BONECA

Entendo que a minha medula poética seja 

a pintura, mas há e sempre houve outras produções, marginais, coisas que eu produzo nas bordas do ateliê, fora dos horários em que estou pintando. Às vezes nem mesmo considero que isso seja arte. Acho que é uma obsessão, uma mania, algo que faço por repetição, não sei.

Desde os sete anos eu faço bonecas de guardanapo, e a essa altura da vida já consigo perceber que se trata de uma espécie de obsessão, algo que não consigo evitar, uma daquelas coisas que fazemos,

algo ainda mais valioso do que seria um hobby. Não sei dizer ao certo, elas transformam a minha solidão em outra coisa, elas povoam a minha solidão.

Talvez todas elas sempre tenham sido autorretratos, sem que eu soubesse.

Afinal, acho que em toda obra
há um pouco de autorretrato do artista, mostra um pouco dele. Eu fazia essas bonecas nos restaurantes
por onde minha família passava. Minha família é muito numerosa, e naquelas mesas imensas e cheias de gente, em meio ao vozerio, eu me recolhia e começava a rasgar e amassar o corpo delicado dos guardanapos.

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Era como se eu pudesse acariciar o papel e ele se rasgasse com

o peso dos meus dedos. Lembro-me de não pensar em nada, eu ia para outro lugar, aquilo me fazia feliz. Com o tempo, aquele hábito silencioso passou a fazer parte

da minha vida interna, em casa, no meu ateliê, por toda parte. As pessoas me trazem guardanapos de viagens que fazem pelo mundo e eu passei a colecionar estampas. Gosto muito dos coloridos, escolho sempre pela cor, e as bonecas são arranjos de cores amarradas e torcidas. Eu abro o papel e depois o torço, e então eu o amarro ou colo para fazer o corpo. Vou juntando outras folhas, e um corpo começa a se formar; ela se torna rígida, e consegue ficar de pé. Gosto de pensar que o vestido delas é também o seu corpo. Também vejo nas minhas bonecas o corpo feminino. Elas são vestidos e cabeças.

Elas são mulheres como eu,
mas ainda não consigo explicar. Às vezes, ao anoitecer, eu olho para minhas bonecas e me assusto com a sensação de que elas poderiam estar vivas e me
olhar de volta.

                                                         Raquel Beldi

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